terça-feira, 21 de junho de 2011

Comunicação Pública

Com base nos textos Comunicação e Opinião Pública (Ana Lucia Romero Novelli) e Comunicação e Política (Venício Lima) e na palestra desta terça (20), sobre comunicação e marketing político, discorra sobre a construção de políticas públicas no Brasil, destacando as lacunas neste processo e mencionando, a partir das leituras, como isto deveria se dar em uma sociedade democrática. Trata-se de um texto de opinião, entretanto, será critério de avaliação que a construção de seus argumentos sejam baseados nas leituras indicadas.

A expressão comunicação pública vem sendo utilizada com múltiplos significados, dependendo do país, do autor e do contexto. O texto Comunicação e opinião pública, escrito por Ana Lucia Romero Novelli e o texto Comunicação e política de Venício A. de Lima, analisam esta diversidade, indicando que a comunicação pública deve ter como foco a cidadania e o interesse público em ações que envolvem diversos atores sociais.
O primeiro texto aborda a Opinião Pública como instância vital para o funcionamento das democracias modernas, porém não nega que ela muitas vezes atende aos interesses privados. A Opinião Pública também é vista como fonte de legitimação política no sentido de que ela deve ser independente e não manipulada, pois a comunicação pública tem como objetivo informar as pessoas de maneira transparente, porém sabe-se que o que a imprensa faz é se apropriar do conceito de Opinião Pública para legitimar as informações, a opinião.
Para Fiquiredo e Cervellini(1995) uma das dificuldades na conceituação e no entendimento dos vários aspectos da opinião pública, é a confusão que há entre a opinião pública e a pesquisa de opinião. Não se pode confundir pesquisa com Opinião Pública porque a pesquisa é apenas uma amostragem que representa um cenário, sendo um recorte da realidade apenas. Enquanto que a opinião pública é resultado de um debate público. Além disso, a Opinião Pública pode ser influenciada pela Pesquisa e pode ocorrer o que a autora chama de “esvaziamento político”.
É importante refletir de que forma a imagem é construída e reconstruída pela imprensa. A função da imprensa acaba sendo apenas a de registrar para produzir cada vez mais informações e o cidadão acaba consumindo toda essa informação que lhe é bombardeada, sem ter tempo de formar sua própria opinião e sem ter noção do todo e da dimensão que está por trás das notícias. Talvez isso ocorra em grande parte porque,“os limites entre o que deve ganhar projeção pública e o que deve ser mantido na esfera privada não são rigorosamente definidos”(Novelli,pág. 74). Os grandes jornais televisivos, por exemplo, não dão margem para discutir a respeito de como se dão os movimentos sociais. É sempre uma opinião já formada que é tomada como verdade e que não abre um leque para discussões nem reflexão.
Lima aborda , entre outras questões, a capacidade que a comunicação tem de construir a agenda pública que estabelece os temas que vão dominar a discussão pública num determinado período. Ressalta que o papel mais importante que a comunicação desempenha decorre do poder de longo prazo que ela tem na construção da realidade através da representação que faz dos diferentes aspectos da vida humana, das etnias, dos gêneros, das gerações, da estética, e em particular da política e dos políticos. É através da comunicação que a política é construída simbolicamente. O espaço de atuação partidária estaria diminuindo cada vez mais porque atribui-se preferência pela cobertura jornalística dos candidatos , sendo representado como uma disputa entre pessoas(políticos) e não entre proposta políticas alternativas(partidos). O grande problema da mídia, segundo Lima seria o de praticar o “denuncismo” julgando e condenando publicamente tanto pessoas como instituições e desempenhando indevidamente a função do Poder Judiciário.
Abordou-se na palestra a questão do marketing eleitoral. Como bem lembrou o palestrante, “a comunicação não é o que você diz. É o que os outros entendem”. Nesse sentido seria importante o assessor de imprensa orientar seu candidato a fazer poucas propostas, porém propostas boas. O sucesso de uma campanha eleitoral dependeu durante muito tempo da relação do candidato direto com os eleitores. Hoje o contato direto foi substituído pelo contato mediado pela mídia eletrônica.
Há uma grande crítica por parte de Habermas(1984) a respeito de uma existência efetiva de uma opinião pública na sociedade contemporânea. Seu argumento principal refere-se à ausência real de uma publicidade autêntica dos assuntos públicos para que as pessoas possam formar uma opinião independente e não manipulada. A opinião pública necessitaria, na verdade de uma imprensa livre e desvinculada do poder público, cujo objetivo fosse tornar transparente sua administração, implicando no acesso do povo a todas as informações que dizem respeito ao funcionamento dos poderes públicos.
Entre os preceitos inerentes à sociedade moderna que se almeja tais como os direitos fundamentais da pessoa, está o princípio da transparência que deve permear todos os atos que envolvem a gestão da coisa pública. As pessoas que exercem cargos nos três poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário -, tenham elas sido eleitas pelo voto ou investidas no posto por designação, precisam se pautar com vistas a ter atitudes e estilo de vida com absoluta visibilidade dos seus atos, sejam eles praticados em praças, gabinetes fechados ou mesmo em conversas telefônicas que digam respeito à condução de assuntos públicos, pois o que está em jogo é o bem maior da coletividade. Isto significa que deveriam ser dado ao conhecimento da sociedade, às ações de interesse público, para que esta pudesse fazer o seu próprio julgamento dos casos.O povo é o titular do poder e que o exerce por meio de seus representantes, não sendo possível esconder-se atos, e devendo primar-se pela publicidade e transparência dos atos. Dessa forma, não só preservar-se-ia o Estado Democrático de Direito do povo brasileiro, mas será possível permitir que os cidadãos participassem ativamente do exercício do poder garantido pela Constituição Brasileira.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Análise crítica do documentário Ônibus 174

O documentário “Ônibus 174” produzido por José Padilha apresenta uma narrativa cronológica do seqüestro do ônibus, ocorrido em janeiro de 2000 no Rio de Janeiro, com depoimentos de especialistas e de pessoas ligadas ao episódio e ao seqüestrador Sandro Rosa do Nascimento. O seqüestro do ônibus 174 paralisou todo o país e foi filmado e transmitido durante pouco mais de quatro horas em rede nacional. Sandro Nascimento, responsável pelo seqüestro, fez onze reféns, os aterrorizou, simulou um assassinato e fez exigências para os policiais. Após algumas tentativas de fuga Sandro se viu convencido de que não atingiria seu objetivo, então aceitou se entregar. Ao descer do veículo, fez a professora Geísa Gonçalves de escudo. A atitude precipitada de um dos policiais, que atirou contra Sandro fez com que a bala acertasse a professora, que acabou falecendo. Os policiais levaram Sandro para o camburão, mas ele saiu de lá morto. O resultado da perícia provou que ele morreu asfixiado. O desenrolar e posterior desfecho desta tragédia motivaram José Padilha a assumir a direção de um documentário que conseguisse narrar o acontecido de maneira a mostrar tudo o que não foi veiculado na época, nos grandes meios de comunicação. Para a produção e construção da estrutura narrativa, o filme relata o fato fazendo contextualizações, investigando a vida do seqüestrador e se baseando em análises de profissionais.
O documentário conta duas histórias ao mesmo tempo, a partir de imagens intercaladas do seqüestro do ônibus 174 e da trajetória de vida de Sandro, construindo um diálogo que aponta para as causas da violência urbana em países em desenvolvimento como o Brasil.
Na construção da trama, Padilha utilizou imagens do episódio gravadas pela TV Globo, TV Bandeirantes e Rede Record, realizou entrevistas com personagens relacionados ao fato e montou um ``mapa'' da vida de Sandro com as informações obtidas a partir do trabalho de investigação de um detetive profissional e de um advogado, que juntos reuniram 187 páginas de documentos oficiais e arquivos da polícia sobre o seqüestrador. Essa abrangência dos argumentos, depoimentos e informações presentes no documentário provoca uma outra interpretação acerca do episódio, menos imediatista e superficial do que a apresentada pelos veículos de comunicação à época.
São os depoimentos de personagens ligados ao caso do ônibus 174 e à vida de Sandro do Nascimento que reforçam a profundidade pretendida na abordagem feita pelo documentário Ônibus 174. Entre os personagens destacam-se Yvonne Bezerra de Melo, assistente social que, como consta no documentário, conheceu Sandro na Praça da Candelária; Janaína Lopes Neves e Luanna Belmont, reféns do seqüestro; Luís Eduardo Soares, sociólogo; Julieta do Nascimento, tia que cuidou de Sandro após o assassinato da mãe; Dona Elza, mãe ``adotiva'' e única pessoa a comparecer ao enterro de Nascimento; Mendonça, carcereiro da 26ª Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro, conhecida como ``o cofre'', onde Sandro chegou a ficar preso; Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), afastado da Polícia Militar por ter se colocado contra a ação policial no episódio; entre outros. Assim, por meio do documentário, o diretor José Padilha revela que o que tivemos acesso por meio da mídia na época era apenas um fragmento da história. É como se os depoimentos colhidos, o levantamento dos dados e a investigação efetuada nos alertasse para as mazelas sociais e econômicas do país.
O documentário, ao contrário do que a mídia na época noticiou sobre o caso, procura retratar o seqüestrador de forma mais humana, mostrando os principais acontecimentos da sua trajetória, as tentativas de mudança de Sandro durante sua vida, as amizades, a família, o comportamento, dentre outros aspectos. Algumas passagens do filme evidenciam essa intenção. Por exemplo, o depoimento de Claudete Beltrana, colega de rua de Sandro, no qual ela relembra o momento em que os moradores se reuniam para comer batatas fritas e sanduíches comprados numa rede de fast food ou o testemunho da mãe adotiva Elza, que cedeu um quarto de sua casa para Sandro morar ,ou ainda o vídeo de Sandro jogando capoeira, ainda na adolescência; e a fala da refém Luanna Belmont para Sandro pouco antes dele sair do ônibus 174.
. O problema é que diante dessa preocupação em mostrar o lado “humano” do seqüestrador, durante quase a totalidade do documentário, que contém duas horas de duração, parece haver uma tentativa de defender ou justificar os atos criminosos do seqüestrador. O diretor parece transformar a produção em uma comovente história da vida de Sandro Nascimento, o seqüestrador ,para que as pessoas ,de modo geral, passem a conhecer sua história, sua realidade de vida, e passem a “entender” o que leva uma pessoa a cometer tal barbaridade .
Um dos depoimentos mostrados no vídeo é o da assistente social Yvonne Bezerra, em que ela diz ter sido procurada por Sandro pouco antes do episódio do ônibus 174, e que ele lhe revelara a dificuldade de um analfabeto, pobre e marginalizado arrumar emprego; e a seqüência que retoma o massacre da Candelária, ocorrido em 23 de julho de 1993, do qual Sandro acabou escapando, embora tenha presenciado a morte de seis companheiros.
O documentário conta duas histórias ao mesmo tempo, a partir de imagens intercaladas do seqüestro e da trajetória de vida de Sandro. A quantidade de argumentos, depoimentos e informações presentes no documentário provocam uma outra interpretação acerca do episódio, menos imediatista e superficial do que a transmitida pelos veículos de comunicação à época. O resultado é um aprofundamento do episódio e uma visão muito mais realista, não só do caso do ônibus 174, mas da realidade social brasileira.
A mídia esteve presente desde o início do seqüestro, transmitindo para o Brasil e o mundo, ao vivo, imagens do caso. Fotógrafos se empilhavam em busca da “melhor imagem”. O seqüestro se tornou uma emocionante novela para os telespectadores que acompanhavam as imagens. A redefinição social de Sandro passou de personagem subalterno a protagonista da trama.
Sandro se sentia poderoso com todas as câmeras voltadas para ele, acompanhando toda a sua movimentação. Era o momento sublime da “visibilidade”, pelo qual Sandro esperara a vida inteira. No documentário, um sociólogo entrevistado classifica crianças que vivem na rua, como o Sandro viveu, como “invisíveis” perante a sociedade que, devido à convivência diária com o problema, passou a encará-las de forma habitual e a incorporá-las à rotina. Nas ruas, a “invisibilidade” de Sandro desaparecia quando realizava assaltos e roubos, pois o medo estampado no rosto da vítima indicava a influência da sua presença e que, de fato, ele existia e possuía uma identidade.
Padilha faz uma crítica ao caso abordado na época pela mídia, dizendo que a manifestação da opinião pública retratou só o momento em si e que a mídia não procurou investigar a vida de Sandro, na tentativa de contextualizar o momento vivido por ele e o que o levou a execução do seqüestro. Antes, buscou explorar suas imagens “aterrorizantes” e condená-lo à morte. A população ao ver que Sandro ainda não estava morto ao final do seqüestro quis resolver o caso com as suas próprias mãos. Pois a falha da polícia foi ter permitido que o bandido saísse vivo dali, enquanto a refém estava morta. Percebe-se que houve um esgotamento do caso, com a exploração dos seus aspectos emocionais, espetaculares e sensacionais. Dessa forma percebe-se o quão distorcido pode ser a visão fornecida pelos fatos a partir da mídia. Mas, até que ponto a mídia consegue fazer uma construção da realidade? Talvez seja a hora e o momento para a internet, o cinema, a produção editorial e outros meios, participem mais ativamente nessa elaboração do “real”, multiplicando assim as maneiras de interpretar os fatos e a realidade. Assim cria-se uma forma alternativa às informações padronizadas dos veículos de “massa”, saturados pela objetividade e imparcialidade camuflados.
Com o filme podemos perceber também o total despreparo da nossa polícia brasileira. Podemos perceber com o episódio, uma sucessão de erros, com os policiais se comunicando por gestos, muitos negociadores que demonstravam não se entenderem, falta de controle dos repórteres que transitavam no local, e uma autoridade desconhecida que dava ordens por telefone, e impediu que a solução mais adequada - a morte do seqüestrador por atiradores de elite - fosse tomada. Isso sem contar com o desfecho que o seqüestro tomou. Um policial despreparado atirando em Sandro e errando os dois disparos, e o sufocamento desnecessário do agente já imobilizado. É preocupante saber que, é essa mesma polícia a responsável por manter a nossa segurança.
O filme “ÔNIBUS 174” não se propõe a sugerir possíveis saídas para o problema social brasileiro, apenas retrata a questão a partir de uma outra ótica, a dos moradores de rua. As entrevistas feitas nas ruas, com colegas de Sandro e dentro de uma penitenciária evidenciaram a idéia de dar voz aos que desconhecemos ou simplesmente ignoramos. Algumas falas no documentário cumprem seu papel orientando o público a experimentar a sensação de sofrimento e desorganização das celas superlotadas, e assim os instigam a pensar na trajetória de Sandro enquanto vítima da falta de estrutura dos presídios brasileiros. “No espaço de 3 aqui tem 11”.“Aqui tá superlotado, a gente dorme em pedra, eles tratam nossa família mal e a gente come comida azeda”.“A situação do preso é muito ruim. Como que eles querem que o preso se regenere?Essas eram as perguntas mais freqüentes na cela.
O documentário, dessa forma vai esclarecendo fatos que na época do seqüestro do ônibus 147 não foram mostrados na mídia. Muitas pessoas ainda acreditam que Sandro seria o assassino de Geísa, a professora que serviu de refém no seqüestro, mas através de depoimentos e imagens recolhidas sobre o dia no documentário, fica bem claro que na verdade o assassino da professora foi o policial, que ao tentar atirar em Sandro acabou errando o alvo. Nesse momento percebe-se a total falta de preparo da polícia em questões tanto de treinamento quanto de equipamentos necessários para lidar com o caso.
Com base nas evidências recolhidas a partir da análise do documentário Ônibus 174 , pode-se começar a pensar a desigualdade no Brasil e perceber que, talvez, os moradores de rua são apresentados neste filme como sendo, muitas vezes, vítimas de uma estrutura social falha. Dessa forma, o documentário apresenta ao público o contexto do seqüestro, e não apenas o fato em si, procurando mostrar aos telespectadores o que na época a mídia não pôde mostrar.
A produção parece ser honesta e em nenhum momento simula a realidade, indo além de seu status de produto cinematográfico. Faz referência às questões de violência, segurança pública e exclusão social de uma maneira muito clara, por meio de depoimentos, imagens e trilhas sonoras. Utiliza-se imagens panorâmicas, mostrando os contrastes, o lado das mansões e o das favelas da cidade do Rio de Janeiro, procurando ilustrar o conflito e a disparidade social presenciados pelos moradores da cidade.
O filme mostra a vida dos moradores de rua, e como as particularidades deste mundo influenciam na formação da personalidade, e na construção de valores dos que estão inseridos nessa realidade. Diante dessa preocupação em mostrar o lado “humano” do seqüestrador, durante quase a totalidade do documentário, que contém duas horas de duração, parece haver uma tentativa de defender ou justificar os atos criminosos do seqüestrador.O diretor parece transformar a produção em uma comovente história da vida de Sandro Nascimento, o seqüestrador ,para que as pessoas ,de modo geral, passem a conhecer sua história, sua realidade de vida, e passem a “entender” o que leva uma pessoa a cometer tal barbaridade.
Se por um lado o documentário provoca uma reflexão por parte do telespectador em relação às desigualdades do Brasil, e mostrar-se preocupado em saber o que teria levado Sandro a seqüestrar o ônibus, por outro lado tende a procurar justificar o erro do criminoso fazendo um documentário comovente de sua história de vida, colocando depoimentos dos familiares e amigos e enfatizando o erro do policial, para de certa forma “amenizá-lo” da culpa de ter tido realizado o seqüestro.