O documentário “Ônibus 174” produzido por José Padilha apresenta uma narrativa cronológica do seqüestro do ônibus, ocorrido em janeiro de 2000 no Rio de Janeiro, com depoimentos de especialistas e de pessoas ligadas ao episódio e ao seqüestrador Sandro Rosa do Nascimento. O seqüestro do ônibus 174 paralisou todo o país e foi filmado e transmitido durante pouco mais de quatro horas em rede nacional. Sandro Nascimento, responsável pelo seqüestro, fez onze reféns, os aterrorizou, simulou um assassinato e fez exigências para os policiais. Após algumas tentativas de fuga Sandro se viu convencido de que não atingiria seu objetivo, então aceitou se entregar. Ao descer do veículo, fez a professora Geísa Gonçalves de escudo. A atitude precipitada de um dos policiais, que atirou contra Sandro fez com que a bala acertasse a professora, que acabou falecendo. Os policiais levaram Sandro para o camburão, mas ele saiu de lá morto. O resultado da perícia provou que ele morreu asfixiado. O desenrolar e posterior desfecho desta tragédia motivaram José Padilha a assumir a direção de um documentário que conseguisse narrar o acontecido de maneira a mostrar tudo o que não foi veiculado na época, nos grandes meios de comunicação. Para a produção e construção da estrutura narrativa, o filme relata o fato fazendo contextualizações, investigando a vida do seqüestrador e se baseando em análises de profissionais.
O documentário conta duas histórias ao mesmo tempo, a partir de imagens intercaladas do seqüestro do ônibus 174 e da trajetória de vida de Sandro, construindo um diálogo que aponta para as causas da violência urbana em países em desenvolvimento como o Brasil.
Na construção da trama, Padilha utilizou imagens do episódio gravadas pela TV Globo, TV Bandeirantes e Rede Record, realizou entrevistas com personagens relacionados ao fato e montou um ``mapa'' da vida de Sandro com as informações obtidas a partir do trabalho de investigação de um detetive profissional e de um advogado, que juntos reuniram 187 páginas de documentos oficiais e arquivos da polícia sobre o seqüestrador. Essa abrangência dos argumentos, depoimentos e informações presentes no documentário provoca uma outra interpretação acerca do episódio, menos imediatista e superficial do que a apresentada pelos veículos de comunicação à época.
São os depoimentos de personagens ligados ao caso do ônibus 174 e à vida de Sandro do Nascimento que reforçam a profundidade pretendida na abordagem feita pelo documentário Ônibus 174. Entre os personagens destacam-se Yvonne Bezerra de Melo, assistente social que, como consta no documentário, conheceu Sandro na Praça da Candelária; Janaína Lopes Neves e Luanna Belmont, reféns do seqüestro; Luís Eduardo Soares, sociólogo; Julieta do Nascimento, tia que cuidou de Sandro após o assassinato da mãe; Dona Elza, mãe ``adotiva'' e única pessoa a comparecer ao enterro de Nascimento; Mendonça, carcereiro da 26ª Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro, conhecida como ``o cofre'', onde Sandro chegou a ficar preso; Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), afastado da Polícia Militar por ter se colocado contra a ação policial no episódio; entre outros. Assim, por meio do documentário, o diretor José Padilha revela que o que tivemos acesso por meio da mídia na época era apenas um fragmento da história. É como se os depoimentos colhidos, o levantamento dos dados e a investigação efetuada nos alertasse para as mazelas sociais e econômicas do país.
O documentário, ao contrário do que a mídia na época noticiou sobre o caso, procura retratar o seqüestrador de forma mais humana, mostrando os principais acontecimentos da sua trajetória, as tentativas de mudança de Sandro durante sua vida, as amizades, a família, o comportamento, dentre outros aspectos. Algumas passagens do filme evidenciam essa intenção. Por exemplo, o depoimento de Claudete Beltrana, colega de rua de Sandro, no qual ela relembra o momento em que os moradores se reuniam para comer batatas fritas e sanduíches comprados numa rede de fast food ou o testemunho da mãe adotiva Elza, que cedeu um quarto de sua casa para Sandro morar ,ou ainda o vídeo de Sandro jogando capoeira, ainda na adolescência; e a fala da refém Luanna Belmont para Sandro pouco antes dele sair do ônibus 174.
. O problema é que diante dessa preocupação em mostrar o lado “humano” do seqüestrador, durante quase a totalidade do documentário, que contém duas horas de duração, parece haver uma tentativa de defender ou justificar os atos criminosos do seqüestrador. O diretor parece transformar a produção em uma comovente história da vida de Sandro Nascimento, o seqüestrador ,para que as pessoas ,de modo geral, passem a conhecer sua história, sua realidade de vida, e passem a “entender” o que leva uma pessoa a cometer tal barbaridade .
Um dos depoimentos mostrados no vídeo é o da assistente social Yvonne Bezerra, em que ela diz ter sido procurada por Sandro pouco antes do episódio do ônibus 174, e que ele lhe revelara a dificuldade de um analfabeto, pobre e marginalizado arrumar emprego; e a seqüência que retoma o massacre da Candelária, ocorrido em 23 de julho de 1993, do qual Sandro acabou escapando, embora tenha presenciado a morte de seis companheiros.
O documentário conta duas histórias ao mesmo tempo, a partir de imagens intercaladas do seqüestro e da trajetória de vida de Sandro. A quantidade de argumentos, depoimentos e informações presentes no documentário provocam uma outra interpretação acerca do episódio, menos imediatista e superficial do que a transmitida pelos veículos de comunicação à época. O resultado é um aprofundamento do episódio e uma visão muito mais realista, não só do caso do ônibus 174, mas da realidade social brasileira.
A mídia esteve presente desde o início do seqüestro, transmitindo para o Brasil e o mundo, ao vivo, imagens do caso. Fotógrafos se empilhavam em busca da “melhor imagem”. O seqüestro se tornou uma emocionante novela para os telespectadores que acompanhavam as imagens. A redefinição social de Sandro passou de personagem subalterno a protagonista da trama.
Sandro se sentia poderoso com todas as câmeras voltadas para ele, acompanhando toda a sua movimentação. Era o momento sublime da “visibilidade”, pelo qual Sandro esperara a vida inteira. No documentário, um sociólogo entrevistado classifica crianças que vivem na rua, como o Sandro viveu, como “invisíveis” perante a sociedade que, devido à convivência diária com o problema, passou a encará-las de forma habitual e a incorporá-las à rotina. Nas ruas, a “invisibilidade” de Sandro desaparecia quando realizava assaltos e roubos, pois o medo estampado no rosto da vítima indicava a influência da sua presença e que, de fato, ele existia e possuía uma identidade.
Padilha faz uma crítica ao caso abordado na época pela mídia, dizendo que a manifestação da opinião pública retratou só o momento em si e que a mídia não procurou investigar a vida de Sandro, na tentativa de contextualizar o momento vivido por ele e o que o levou a execução do seqüestro. Antes, buscou explorar suas imagens “aterrorizantes” e condená-lo à morte. A população ao ver que Sandro ainda não estava morto ao final do seqüestro quis resolver o caso com as suas próprias mãos. Pois a falha da polícia foi ter permitido que o bandido saísse vivo dali, enquanto a refém estava morta. Percebe-se que houve um esgotamento do caso, com a exploração dos seus aspectos emocionais, espetaculares e sensacionais. Dessa forma percebe-se o quão distorcido pode ser a visão fornecida pelos fatos a partir da mídia. Mas, até que ponto a mídia consegue fazer uma construção da realidade? Talvez seja a hora e o momento para a internet, o cinema, a produção editorial e outros meios, participem mais ativamente nessa elaboração do “real”, multiplicando assim as maneiras de interpretar os fatos e a realidade. Assim cria-se uma forma alternativa às informações padronizadas dos veículos de “massa”, saturados pela objetividade e imparcialidade camuflados.
Com o filme podemos perceber também o total despreparo da nossa polícia brasileira. Podemos perceber com o episódio, uma sucessão de erros, com os policiais se comunicando por gestos, muitos negociadores que demonstravam não se entenderem, falta de controle dos repórteres que transitavam no local, e uma autoridade desconhecida que dava ordens por telefone, e impediu que a solução mais adequada - a morte do seqüestrador por atiradores de elite - fosse tomada. Isso sem contar com o desfecho que o seqüestro tomou. Um policial despreparado atirando em Sandro e errando os dois disparos, e o sufocamento desnecessário do agente já imobilizado. É preocupante saber que, é essa mesma polícia a responsável por manter a nossa segurança.
O filme “ÔNIBUS 174” não se propõe a sugerir possíveis saídas para o problema social brasileiro, apenas retrata a questão a partir de uma outra ótica, a dos moradores de rua. As entrevistas feitas nas ruas, com colegas de Sandro e dentro de uma penitenciária evidenciaram a idéia de dar voz aos que desconhecemos ou simplesmente ignoramos. Algumas falas no documentário cumprem seu papel orientando o público a experimentar a sensação de sofrimento e desorganização das celas superlotadas, e assim os instigam a pensar na trajetória de Sandro enquanto vítima da falta de estrutura dos presídios brasileiros. “No espaço de 3 aqui tem 11”.“Aqui tá superlotado, a gente dorme em pedra, eles tratam nossa família mal e a gente come comida azeda”.“A situação do preso é muito ruim. Como que eles querem que o preso se regenere?Essas eram as perguntas mais freqüentes na cela.
O documentário, dessa forma vai esclarecendo fatos que na época do seqüestro do ônibus 147 não foram mostrados na mídia. Muitas pessoas ainda acreditam que Sandro seria o assassino de Geísa, a professora que serviu de refém no seqüestro, mas através de depoimentos e imagens recolhidas sobre o dia no documentário, fica bem claro que na verdade o assassino da professora foi o policial, que ao tentar atirar em Sandro acabou errando o alvo. Nesse momento percebe-se a total falta de preparo da polícia em questões tanto de treinamento quanto de equipamentos necessários para lidar com o caso.
Com base nas evidências recolhidas a partir da análise do documentário Ônibus 174 , pode-se começar a pensar a desigualdade no Brasil e perceber que, talvez, os moradores de rua são apresentados neste filme como sendo, muitas vezes, vítimas de uma estrutura social falha. Dessa forma, o documentário apresenta ao público o contexto do seqüestro, e não apenas o fato em si, procurando mostrar aos telespectadores o que na época a mídia não pôde mostrar.
A produção parece ser honesta e em nenhum momento simula a realidade, indo além de seu status de produto cinematográfico. Faz referência às questões de violência, segurança pública e exclusão social de uma maneira muito clara, por meio de depoimentos, imagens e trilhas sonoras. Utiliza-se imagens panorâmicas, mostrando os contrastes, o lado das mansões e o das favelas da cidade do Rio de Janeiro, procurando ilustrar o conflito e a disparidade social presenciados pelos moradores da cidade.
O filme mostra a vida dos moradores de rua, e como as particularidades deste mundo influenciam na formação da personalidade, e na construção de valores dos que estão inseridos nessa realidade. Diante dessa preocupação em mostrar o lado “humano” do seqüestrador, durante quase a totalidade do documentário, que contém duas horas de duração, parece haver uma tentativa de defender ou justificar os atos criminosos do seqüestrador.O diretor parece transformar a produção em uma comovente história da vida de Sandro Nascimento, o seqüestrador ,para que as pessoas ,de modo geral, passem a conhecer sua história, sua realidade de vida, e passem a “entender” o que leva uma pessoa a cometer tal barbaridade.
Se por um lado o documentário provoca uma reflexão por parte do telespectador em relação às desigualdades do Brasil, e mostrar-se preocupado em saber o que teria levado Sandro a seqüestrar o ônibus, por outro lado tende a procurar justificar o erro do criminoso fazendo um documentário comovente de sua história de vida, colocando depoimentos dos familiares e amigos e enfatizando o erro do policial, para de certa forma “amenizá-lo” da culpa de ter tido realizado o seqüestro.
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